Hipogonadismo masculino e testosterona baixa

 Cansaço, redução da libido, alterações da função sexual, perda de força, redução de massa muscular, alterações de densidade óssea e mudanças de humor são sintomas frequentemente atribuídos à “testosterona baixa”. Entretanto, essas manifestações são inespecíficas e podem ocorrer por diversas outras causas. O hipogonadismo masculino é uma condição clínica caracterizada pela produção insuficiente de testosterona e/ou comprometimento da função testicular em decorrência de alterações no eixo hipotálamo-hipófise-testículos. Seu diagnóstico não deve ser feito apenas porque um exame mostrou testosterona abaixo de determinado valor. É necessário avaliar a presença de sinais e sintomas compatíveis, confirmar adequadamente a alteração laboratorial e investigar sua causa. Quando o diagnóstico é estabelecido, o tratamento depende da origem do problema, das características do paciente, da presença de outras doenças e, especialmente, do desejo de preservar a fertilidade.

O que é hipogonadismo masculino?

A produção de testosterona é controlada por um sistema hormonal que envolve o hipotálamo, a hipófise e os testículos. O hipotálamo produz GnRH, que estimula a hipófise a liberar os hormônios LH e FSH. O LH atua principalmente estimulando a produção testicular de testosterona, enquanto o FSH participa da regulação da espermatogênese. Alterações em diferentes pontos desse eixo podem resultar em hipogonadismo. No hipogonadismo primário, o problema está predominantemente nos próprios testículos. Nesses casos, a testosterona pode estar reduzida enquanto LH e FSH tendem a estar elevados. No hipogonadismo secundário, a alteração ocorre no hipotálamo ou na hipófise. A testosterona está reduzida, mas os níveis de LH e FSH podem estar baixos ou inadequadamente normais. Essa distinção é importante porque as causas, a investigação e o tratamento podem ser diferentes.

Quais são os sintomas da testosterona baixa?

As manifestações dependem da intensidade e duração da deficiência hormonal, da idade em que ela surgiu e de outros fatores individuais. Entre os sintomas e sinais que podem ocorrer estão: redução da libido; diminuição das ereções espontâneas; disfunção erétil em alguns pacientes; redução de massa e força muscular; aumento da gordura corporal; redução da densidade mineral óssea; anemia em determinados casos; infertilidade; redução do volume testicular em algumas condições; cansaço e redução da disposição; alterações de humor e concentração. Entretanto, vários desses sintomas são pouco específicos. Cansaço, menor disposição, dificuldade de concentração, alterações do sono e disfunção erétil, por exemplo, podem ocorrer mesmo com níveis normais de testosterona. Por isso, sintomas isolados não são suficientes para estabelecer o diagnóstico de hipogonadismo.

Um exame de testosterona baixa significa hipogonadismo?

Não necessariamente. Os níveis de testosterona apresentam variação ao longo do dia e também podem variar de um dia para outro. Sono inadequado, doenças agudas, alterações importantes do peso, determinados medicamentos e outras condições podem interferir nos resultados. Além disso, alterações da proteína transportadora de hormônios sexuais, a SHBG, podem modificar a concentração de testosterona total sem que isso represente necessariamente uma deficiência equivalente da fração biologicamente disponível. Por esses motivos, o diagnóstico não deve ser baseado em uma única dosagem isolada.

Como é feito o diagnóstico de hipogonadismo masculino?

O diagnóstico exige a combinação de manifestações clínicas compatíveis com níveis de testosterona consistentemente reduzidos. De maneira geral, a testosterona total deve ser avaliada pela manhã e, quando reduzida, confirmada em uma segunda coleta realizada em outro dia. As principais diretrizes internacionais utilizam valores próximos de 300-350 ng/dL como referência clínica importante, mas nenhum número deve ser interpretado isoladamente. O método utilizado pelo laboratório, a faixa de referência, a idade, os sintomas e as condições que interferem na SHBG precisam ser considerados. Em situações nas quais a testosterona total está próxima do limite inferior ou existe suspeita de alteração da SHBG, a avaliação da testosterona livre calculada ou medida por metodologia adequada pode fornecer informações adicionais. O diagnóstico, portanto, é clínico e laboratorial.

Por que a testosterona deve ser repetida?

Porque existe variabilidade biológica significativa. Um homem pode apresentar uma dosagem reduzida em determinado dia e resultado normal quando o exame é repetido em condições adequadas. Além disso, doenças agudas, privação de sono, ingestão alimentar e outros fatores podem reduzir temporariamente os níveis hormonais. Confirmar a alteração reduz o risco de diagnosticar hipogonadismo em homens que não apresentam deficiência hormonal persistente e evita iniciar tratamentos desnecessários.

Quais exames podem ser necessários?

Depois de confirmar uma testosterona persistentemente baixa em um paciente com quadro clínico compatível, o próximo passo é investigar sua origem. A avaliação pode incluir, dependendo do caso: testosterona total; SHBG e avaliação da testosterona livre quando indicadas; LH; FSH; prolactina; hemograma e hematócrito; PSA, conforme idade e contexto clínico; função tireoidiana; outros exames hormonais ou metabólicos conforme a hipótese diagnóstica. Em determinados pacientes com suspeita de alteração hipofisária, também pode ser necessário avaliar outros eixos hormonais e realizar ressonância magnética da região hipotálamo-hipofisária. Não existe, entretanto, um painel único de exames que deva ser solicitado indiscriminadamente para todos os homens.

Quais são as causas de hipogonadismo?

Existem diversas causas possíveis. O hipogonadismo primário pode estar relacionado a alterações genéticas, lesões testiculares, orquite, trauma, quimioterapia, radioterapia e outras condições que comprometem diretamente a função dos testículos. O hipogonadismo secundário pode ocorrer por doenças da hipófise ou hipotálamo, hiperprolactinemia, determinados medicamentos e outras alterações do eixo hormonal. Também existem situações nas quais doenças crônicas, obesidade importante, alterações metabólicas e determinados medicamentos estão associados à supressão potencialmente reversível do eixo hormonal. Identificar a causa é importante porque nem todo paciente com testosterona reduzida necessita imediatamente de reposição hormonal.

Obesidade pode reduzir a testosterona?

Sim. A obesidade, especialmente quando associada a alterações metabólicas, frequentemente está relacionada a níveis menores de testosterona total. Um dos mecanismos envolvidos é a redução da SHBG, que pode diminuir a testosterona total sem necessariamente produzir redução proporcional da testosterona livre. Em outros pacientes, a obesidade pode estar associada a uma supressão funcional do eixo hipotálamo-hipófise-testículos. Por isso, interpretar apenas a testosterona total em um homem com obesidade pode levar a conclusões inadequadas. Perda de peso e tratamento das condições metabólicas associadas podem produzir melhora dos níveis de testosterona em alguns homens.

Envelhecer significa necessariamente precisar de reposição de testosterona?

Não. Os níveis médios de testosterona podem diminuir com o envelhecimento, mas idade isoladamente não estabelece diagnóstico de hipogonadismo. Da mesma forma, sintomas como redução da energia, alterações da composição corporal ou diminuição da função sexual não devem ser automaticamente atribuídos a uma deficiência de testosterona. A terapia com testosterona não é um tratamento de “rejuvenescimento” e não deve ser utilizada com o objetivo de elevar a testosterona de homens sem hipogonadismo para níveis acima da faixa fisiológica. O diagnóstico continua exigindo sintomas ou sinais compatíveis associados à comprovação laboratorial adequada da deficiência hormonal.

Quando a reposição de testosterona é indicada?

A terapia de reposição de testosterona pode ser indicada para homens com hipogonadismo adequadamente diagnosticado, após investigação de sua causa e avaliação dos potenciais benefícios e riscos do tratamento. O objetivo é restabelecer concentrações fisiológicas de testosterona e melhorar manifestações relacionadas à deficiência hormonal. Em homens verdadeiramente hipogonádicos, o tratamento pode melhorar aspectos como libido, algumas dimensões da função sexual, composição corporal, anemia e densidade mineral óssea, dependendo das características individuais. Entretanto, a resposta não é idêntica para todos os sintomas. Um paciente com cansaço, por exemplo, pode continuar cansado mesmo após normalizar a testosterona se a verdadeira causa do sintoma for distúrbio do sono, depressão, anemia, outra doença clínica ou outro fator não relacionado ao hipogonadismo.

Reposição de testosterona melhora a função sexual?

Pode melhorar determinados aspectos da função sexual em homens com hipogonadismo. A melhora da libido é um dos efeitos mais consistentes em pacientes adequadamente selecionados. A disfunção erétil, entretanto, é multifatorial. Diabetes, hipertensão, doença vascular, tabagismo, medicamentos, fatores psicológicos e outras condições também podem comprometer a ereção. Por isso, normalizar a testosterona não necessariamente resolve a disfunção erétil quando existem outros mecanismos envolvidos. Reposição de testosterona serve para ganhar massa muscular? A testosterona influencia a massa e a força muscular, e homens com deficiência hormonal podem apresentar alterações de composição corporal. A correção do hipogonadismo pode aumentar massa magra e reduzir massa de gordura em determinados pacientes. Isso é diferente de utilizar doses suprafisiológicas de testosterona ou esteroides anabolizantes com finalidade estética ou de aumento de desempenho. Na reposição hormonal, o objetivo é restaurar níveis fisiológicos em um paciente que apresenta deficiência comprovada, e não produzir concentrações hormonais acima do normal.

Reposição de testosterona causa infertilidade?

A testosterona administrada externamente pode reduzir significativamente a produção de espermatozoides. Isso ocorre porque a testosterona exógena reduz a secreção de LH e FSH pela hipófise, diminuindo a estimulação intratesticular necessária para a espermatogênese. Por esse motivo, a terapia de reposição com testosterona não deve ser utilizada como tratamento do hipogonadismo em homens que desejam preservar ou recuperar fertilidade sem que esse aspecto seja cuidadosamente considerado. Em pacientes com hipogonadismo secundário e desejo reprodutivo, outras estratégias podem ser utilizadas em situações selecionadas, incluindo terapias que estimulam o próprio eixo hormonal ou a função testicular. O desejo de ter filhos deve, portanto, ser discutido antes de iniciar qualquer tratamento.

Clomifeno pode ser utilizado?

Em situações selecionadas, medicamentos que estimulam a produção endógena de testosterona podem ser considerados, particularmente quando existe interesse em preservar a fertilidade. O citrato de clomifeno atua modulando o feedback estrogênico no eixo hipotálamo-hipófise, podendo aumentar a secreção de gonadotrofinas e, consequentemente, estimular a produção testicular de testosterona em homens com eixo funcional. Seu uso em homens é geralmente realizado fora das indicações formais de bula e não é adequado para todos os tipos de hipogonadismo. A escolha entre estimular a produção endógena e realizar reposição direta depende da causa do hipogonadismo, idade, função testicular, objetivos reprodutivos e características individuais. Quais são as formas de reposição de testosterona? Existem diferentes formulações de testosterona, incluindo preparações injetáveis e transdérmicas. Cada apresentação possui características próprias de absorção, intervalo entre doses, variação das concentrações hormonais, conveniência, custo e possíveis efeitos adversos. Preparações injetáveis de ação prolongada podem proporcionar intervalos maiores entre aplicações, enquanto formulações transdérmicas permitem administração mais frequente e ajuste relativamente simples da dose. Não existe uma formulação universalmente superior para todos os homens. A escolha deve considerar características clínicas, preferência do paciente, disponibilidade e capacidade de acompanhamento.

A reposição de testosterona aumenta o risco cardiovascular?

A relação entre testosterona e risco cardiovascular foi motivo de preocupação durante muitos anos. As evidências contemporâneas são mais tranquilizadoras em relação ao uso de reposição fisiológica em homens adequadamente diagnosticados e acompanhados, e grandes estudos randomizados não demonstraram aumento global de eventos cardiovasculares maiores em determinadas populações tratadas. Isso não significa que a terapia seja isenta de riscos ou que deva ser prescrita indiscriminadamente. Homens com doença cardiovascular estabelecida ou determinados fatores de risco exigem avaliação individualizada, e algumas situações clínicas podem justificar adiar ou evitar o início do tratamento. A decisão deve considerar o risco cardiovascular global do paciente, e não apenas sua testosterona.

Testosterona causa câncer de próstata?

As evidências atuais não demonstram que a reposição fisiológica de testosterona em homens adequadamente selecionados provoque câncer de próstata. Entretanto, a próstata é um órgão sensível aos andrógenos e a segurança de longo prazo continua sendo objeto de acompanhamento e pesquisa. Por isso, antes de iniciar o tratamento, o risco prostático deve ser avaliado de acordo com a idade, histórico individual e familiar e recomendações aplicáveis. Durante o tratamento, PSA, sintomas urinários e avaliação prostática podem ser acompanhados conforme o perfil de cada paciente. Homens com câncer de próstata ativo exigem abordagem específica e não devem iniciar reposição hormonal de rotina. Por que o hematócrito precisa ser acompanhado? A testosterona estimula a produção de glóbulos vermelhos. Em alguns homens, a reposição pode provocar aumento excessivo do hematócrito, condição denominada eritrocitose. Por isso, hemograma e hematócrito devem ser avaliados antes e durante o tratamento. Elevações importantes podem exigir redução da dose, alteração da formulação, interrupção temporária do tratamento ou investigação de outros fatores contribuintes. O acompanhamento laboratorial faz parte da segurança da terapia de reposição.

É necessário acompanhar o PSA?

Quando existe indicação de avaliação prostática de acordo com a idade e o risco individual, o PSA pode fazer parte da avaliação antes e durante a reposição de testosterona. Um PSA alterado não significa necessariamente câncer de próstata, mas pode justificar investigação adicional. Da mesma forma, a reposição hormonal não substitui o acompanhamento preventivo apropriado para a idade e o risco de cada homem.

Testosterona baixa sempre precisa ser tratada com reposição?

Não. Essa é uma das distinções mais importantes no tratamento do hipogonadismo. Primeiro é necessário determinar se existe realmente deficiência hormonal persistente e clinicamente relevante. Depois, é preciso investigar sua causa. Obesidade, uso de determinados medicamentos, hiperprolactinemia, algumas doenças sistêmicas e alterações da hipófise são exemplos de situações que podem exigir uma abordagem direcionada à causa. Em determinados pacientes, tratar a condição subjacente pode melhorar a produção hormonal. Além disso, homens que desejam preservar fertilidade podem necessitar de estratégias diferentes da reposição direta de testosterona.

Como é feito o acompanhamento de quem utiliza testosterona?

A terapia de reposição hormonal exige acompanhamento periódico. Além da resposta dos sintomas, podem ser avaliados: níveis de testosterona; hemograma e hematócrito; PSA e saúde prostática quando indicados; possíveis efeitos adversos; pressão arterial e fatores de risco cardiovascular; resposta clínica ao tratamento. A frequência e os exames necessários dependem da formulação utilizada, idade, comorbidades e perfil de risco do paciente. O objetivo não é simplesmente atingir um determinado número no exame, mas obter benefício clínico mantendo níveis fisiológicos e acompanhando a segurança do tratamento.

Hipogonadismo masculino e reposição de testosterona em Florianópolis e Santo Amaro da Imperatriz

Realizo acompanhamento endocrinológico em Florianópolis e Santo Amaro da Imperatriz para homens com suspeita ou diagnóstico de hipogonadismo, testosterona baixa, alterações da libido e outras manifestações que possam estar relacionadas à deficiência androgênica. A avaliação procura determinar inicialmente se existe realmente hipogonadismo e, quando confirmado, identificar sua possível causa. Isso pode envolver análise dos níveis de testosterona, LH, FSH, prolactina e outros exames de acordo com o contexto, além da avaliação da saúde metabólica, composição corporal, fertilidade, risco cardiovascular e saúde prostática quando indicada. Quando a reposição de testosterona é apropriada, o objetivo é realizar tratamento fisiológico, com acompanhamento clínico e laboratorial e sem buscar níveis hormonais suprafisiológicos. Nos homens que desejam preservar a fertilidade, esse objetivo é considerado antes da escolha terapêutica, pois a administração de testosterona exógena pode reduzir a produção de espermatozoides.

Quando procurar um endocrinologista por suspeita de testosterona baixa?

A avaliação pode ser indicada diante de redução persistente da libido, alterações da função sexual, infertilidade, perda de massa ou força muscular, osteoporose ou outros sinais sugestivos de deficiência androgênica, especialmente quando existe uma dosagem de testosterona reduzida. Também é apropriada para homens que já receberam diagnóstico de “testosterona baixa” com base em um único exame e desejam confirmar se existe realmente hipogonadismo antes de iniciar tratamento. Homens que já utilizam testosterona também precisam de acompanhamento adequado para avaliar eficácia, níveis hormonais, hematócrito, saúde prostática quando pertinente e possíveis efeitos adversos. O tratamento do hipogonadismo masculino deve partir de um diagnóstico correto. Mais do que simplesmente elevar um resultado laboratorial, o objetivo é identificar a causa da deficiência hormonal, tratar homens que realmente possam se beneficiar e utilizar a terapia de forma fisiológica, individualizada e segura.

Dr. Tiago Suassuna
Endocrinologista
CRM-SC 29400 | RQE 21653

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