Tratamento da obesidade, do sobrepeso e da síndrome metabólica

 A obesidade é uma doença crônica, complexa e frequentemente recorrente, que vai muito além de uma questão estética ou simplesmente do número mostrado na balança. O excesso e, principalmente, a distribuição inadequada de gordura corporal podem aumentar o risco de diabetes tipo 2, hipertensão arterial, alterações do colesterol e dos triglicerídeos, doença cardiovascular, apneia do sono, esteatose hepática associada à disfunção metabólica e diversas outras complicações. Por isso, o tratamento moderno da obesidade não deve ter como único objetivo "perder peso". A proposta é melhorar a saúde metabólica, reduzir riscos futuros, preservar massa e função muscular e buscar resultados que possam ser mantidos a longo prazo. O acompanhamento endocrinológico permite avaliar as causas e consequências do ganho de peso e definir, de forma individualizada, quais estratégias podem trazer maior benefício para cada pessoa.

 Obesidade e sobrepeso: quando o peso passa a representar um problema de saúde?

O índice de massa corporal (IMC) continua sendo uma ferramenta útil para rastreamento e classificação do excesso de peso. Em adultos, tradicionalmente considera-se: sobrepeso: IMC entre 25 e 29,9 kg/m²; obesidade grau I: IMC entre 30 e 34,9 kg/m²; obesidade grau II: IMC entre 35 e 39,9 kg/m²; obesidade grau III: IMC igual ou superior a 40 kg/m². Entretanto, o IMC não conta toda a história. Duas pessoas com o mesmo IMC podem apresentar quantidades e distribuições muito diferentes de gordura corporal e, consequentemente, riscos metabólicos diferentes. A circunferência abdominal, a composição corporal, a presença de gordura visceral e, sobretudo, a existência de doenças ou alterações metabólicas associadas ajudam a determinar a relevância clínica do excesso de peso. Por esse motivo, a avaliação atual da obesidade deve ir além da balança e do IMC.

O que é síndrome metabólica?

A síndrome metabólica corresponde à associação de alterações metabólicas que frequentemente aparecem em conjunto e estão relacionadas principalmente à resistência à insulina e ao acúmulo de gordura abdominal. Entre essas alterações estão aumento da circunferência abdominal, pressão arterial elevada, glicemia aumentada, triglicerídeos elevados e redução do HDL-colesterol. Sua presença identifica um contexto de maior risco para desenvolvimento de diabetes tipo 2 e doença cardiovascular e indica a necessidade de uma avaliação global dos fatores de risco. É importante compreender que nem todas as pessoas com obesidade apresentam exatamente as mesmas alterações metabólicas. Da mesma maneira, uma pessoa pode apresentar resistência à insulina, aumento da gordura visceral ou componentes da síndrome metabólica mesmo sem apresentar obesidade pelo IMC.

Por que é tão difícil perder peso e manter o resultado? A regulação do peso corporal envolve uma interação complexa entre cérebro, tecido adiposo, trato gastrointestinal, músculos, fígado, hormônios, genética, sono, alimentação, atividade física e ambiente. Após uma perda significativa de peso, podem surgir adaptações fisiológicas que favorecem sua recuperação, incluindo aumento da fome e alterações nos mecanismos de saciedade e no gasto energético. Isso ajuda a explicar por que a recuperação de peso é frequente quando o tratamento é interrompido e por que a obesidade atualmente é compreendida como uma condição crônica que, em muitos pacientes, necessita de acompanhamento prolongado. Não se trata simplesmente de "falta de força de vontade". Mudanças de comportamento são fundamentais, mas o tratamento baseado em evidências reconhece que algumas pessoas conseguem atingir seus objetivos com intervenções sobre alimentação, atividade física, sono e comportamento, enquanto outras podem se beneficiar também do tratamento farmacológico ou, em situações específicas, da cirurgia metabólica e bariátrica.

Como é feita a avaliação do paciente com sobrepeso ou obesidade?

A primeira etapa é entender a história do ganho de peso e o contexto em que ele ocorreu. Durante a avaliação, podem ser investigados aspectos como: evolução do peso ao longo da vida; padrão alimentar e relação com a alimentação; fome, saciedade e episódios de alimentação impulsiva ou compulsiva; nível de atividade física; qualidade e duração do sono; medicamentos que possam favorecer ganho de peso; histórico familiar; tentativas anteriores de emagrecimento e seus resultados; doenças associadas; fatores hormonais ou metabólicos quando houver indicação clínica. Também é importante pesquisar complicações relacionadas ao excesso de adiposidade, como pré-diabetes e diabetes, hipertensão arterial, dislipidemia, doença hepática metabólica, apneia obstrutiva do sono e doença cardiovascular. A investigação laboratorial é individualizada. Nem todo paciente precisa realizar os mesmos exames. O papel da composição corporal A avaliação do peso isoladamente também apresenta limitações. Durante o emagrecimento, interessa não apenas quanto peso foi perdido, mas também o que está acontecendo com a composição corporal e com a função muscular.  Medidas antropométricas, como a circunferência abdominal, também são particularmente úteis para acompanhar a evolução da adiposidade central. Ao mesmo tempo, a preservação da força e da capacidade funcional ganha importância durante tratamentos que produzem perdas expressivas de peso. Por isso, dependendo do contexto clínico, medidas funcionais como a força de preensão manual (handgrip), associadas à avaliação clínica, nutricional e de atividade física, podem acrescentar informações relevantes ao acompanhamento. O objetivo não deve ser simplesmente atingir o menor peso possível, mas promover uma redução de gordura corporal com preservação adequada da saúde muscular e funcional.

Quanto é necessário emagrecer para melhorar a saúde?

Não existe um único percentual ideal para todas as pessoas. Mesmo perdas relativamente modestas podem trazer benefícios metabólicos. Reduções de aproximadamente 5% do peso corporal já podem melhorar parâmetros como glicemia, pressão arterial e triglicerídeos em muitos pacientes. À medida que a perda de peso aumenta, alguns benefícios também podem se tornar maiores. Reduções superiores a 10% podem produzir efeitos mais expressivos sobre diversas complicações relacionadas à obesidade e, em determinados pacientes com diabetes tipo 2, perdas maiores podem aumentar a possibilidade de remissão da doença. A meta deve, portanto, ser individualizada de acordo com o peso inicial, composição corporal, doenças associadas, resposta ao tratamento e objetivos do paciente.

Como é o tratamento da obesidade?

O tratamento pode envolver diferentes estratégias, que não são concorrentes entre si. Muitas vezes, os melhores resultados surgem justamente da combinação adequada dessas ferramentas. Alimentação Não existe uma única dieta que seja superior para todas as pessoas. O princípio fundamental para perda de peso continua sendo estabelecer um déficit energético sustentável, mas a estratégia alimentar precisa considerar preferências, rotina, condições clínicas, contexto social e capacidade de adesão a longo prazo. De maneira geral, padrões alimentares com maior participação de alimentos in natura ou minimamente processados, vegetais, frutas, fontes adequadas de proteína, fibras e gorduras insaturadas e menor participação de alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas são compatíveis com uma alimentação cardiometabolicamente saudável. Dietas excessivamente restritivas podem produzir perda rápida de peso em alguns contextos, mas não são necessariamente a melhor estratégia para manutenção a longo prazo. Atividade física e exercício A atividade física tem benefícios que vão muito além da quantidade de peso perdida. Ela contribui para saúde cardiovascular, sensibilidade à insulina, capacidade funcional, saúde mental e manutenção do peso perdido. Durante o emagrecimento, o treinamento de força assume importância adicional por ajudar a preservar massa, força e função muscular. Exercícios aeróbicos e atividades do cotidiano também fazem parte de uma estratégia completa. O programa ideal deve considerar idade, condicionamento, limitações físicas, doenças associadas e preferências individuais. Sono e comportamento Sono insuficiente ou de má qualidade pode interferir na regulação do apetite, disposição para atividade física e saúde metabólica. Quando existe suspeita de apneia obstrutiva do sono, especialmente na presença de obesidade, roncos importantes e sonolência diurna, a investigação pode ser necessária. Aspectos comportamentais e psicológicos também devem ser considerados. Transtorno de compulsão alimentar, ansiedade, depressão e outros fatores podem interferir no tratamento e, quando presentes, podem justificar acompanhamento multidisciplinar.

Medicamentos para emagrecer: quando são indicados?

O tratamento farmacológico pode fazer parte do manejo da obesidade e, em determinados pacientes, também do sobrepeso associado a complicações relacionadas ao peso. A decisão não deve ser baseada apenas no desejo de atingir determinado número na balança. Devem ser considerados IMC, distribuição da gordura corporal, presença de doenças associadas, risco cardiometabólico, tratamentos anteriores, contraindicações, possíveis efeitos adversos, preferências e objetivos individuais. Existem diferentes classes de medicamentos aprovados para o tratamento da obesidade, com mecanismos, eficácia e perfis de segurança diferentes. Nos últimos anos, medicamentos que atuam sobre as vias das incretinas modificaram significativamente as possibilidades terapêuticas. Semaglutida, tirzepatida e outros medicamentos baseados em incretinas (inclusive existem novos em fase de investigação clínica, como a retatrutida e a amicretina, que podem chegar no mercado nos próximos anos)  Os agonistas do receptor de GLP-1 e os medicamentos com ação combinada sobre GIP e GLP-1 atuam sobre mecanismos envolvidos na regulação da fome, saciedade, ingestão alimentar e metabolismo da glicose. Entre os medicamentos dessa geração estão a semaglutida e a tirzepatida. Estudos clínicos randomizados demonstraram que essas terapias podem produzir perdas de peso clinicamente relevantes quando adequadamente indicadas e associadas às demais medidas do tratamento. Algumas dessas medicações também apresentam evidências de benefícios sobre desfechos cardiovasculares ou sobre determinadas complicações associadas à obesidade em populações específicas. Isso não significa, entretanto, que sejam medicamentos apropriados para todas as pessoas. A indicação deve considerar histórico clínico, contraindicações, efeitos adversos, outras medicações em uso e objetivos terapêuticos. Náuseas, sensação de plenitude, constipação, diarreia e outros sintomas gastrointestinais estão entre os efeitos adversos possíveis e variam de intensidade entre os pacientes.O acompanhamento médico permite ajustar progressivamente o tratamento e avaliar sua eficácia e tolerabilidade.

O tratamento precisa ser para sempre?

Essa é uma das dúvidas mais frequentes. Como a obesidade é uma doença crônica e frequentemente recorrente, o planejamento deve considerar não apenas a perda de peso inicial, mas também sua manutenção. Isso não significa necessariamente que todo paciente utilizará o mesmo medicamento e a mesma dose indefinidamente. Significa que interromper todas as estratégias após atingir determinado peso frequentemente permite que os mecanismos biológicos que favorecem o reganho voltem a predominar. Estudos com medicamentos modernos para obesidade mostram que uma parcela relevante do peso perdido pode ser recuperada após sua suspensão. Por isso, decisões sobre redução de dose, manutenção, substituição ou retirada da medicação devem ser individualizadas e acompanhadas. E a cirurgia bariátrica ou metabólica? A cirurgia metabólica e bariátrica permanece uma das estratégias mais eficazes para tratamento da obesidade em pacientes adequadamente selecionados. Ela pode produzir perda substancial e sustentada de peso e melhorar diversas doenças relacionadas à obesidade, incluindo diabetes tipo 2, além de reduzir determinados desfechos cardiovasculares e mortalidade em populações estudadas. Sua indicação depende do grau de obesidade, doenças associadas, tratamentos anteriores, risco cirúrgico e avaliação individual. O tratamento cirúrgico também exige acompanhamento de longo prazo, inclusive para monitoramento nutricional. Síndrome metabólica: o objetivo não é apenas emagrecer Quando existe síndrome metabólica, reduzir a adiposidade visceral é uma parte importante do tratamento, mas não é a única. Pressão arterial, colesterol, triglicerídeos e glicemia precisam ser avaliados e tratados de acordo com o risco individual. Em algumas pessoas, a melhora do peso e do estilo de vida produz grande melhora desses parâmetros. Em outras, medicamentos específicos para hipertensão, diabetes ou dislipidemia continuam necessários. O objetivo final é reduzir o risco de complicações futuras — especialmente diabetes tipo 2 e doença cardiovascular — e não simplesmente normalizar o peso. Existe tratamento para resistência à insulina? A resistência à insulina não deve ser interpretada isoladamente como uma doença que precisa necessariamente de um medicamento específico. Ela frequentemente está associada à adiposidade visceral, sedentarismo, predisposição genética e excesso de peso, embora possa ocorrer em diferentes contextos. Quando clinicamente relevante, a estratégia costuma se concentrar na causa e no risco metabólico global: redução da adiposidade quando necessária, atividade física, alimentação adequada e tratamento de pré-diabetes, diabetes, síndrome metabólica ou outras condições associadas. O acompanhamento é individualizado Duas pessoas com o mesmo peso podem precisar de tratamentos completamente diferentes. Uma pode apresentar obesidade sem alterações metabólicas importantes naquele momento. Outra, com IMC menor, pode apresentar grande quantidade de gordura visceral, pré-diabetes, hipertensão, dislipidemia e doença hepática metabólica. Por isso, o tratamento não deve ser definido apenas pelo peso ou pelo resultado de uma bioimpedância. A avaliação endocrinológica integra história clínica, exame físico, composição e distribuição corporal, exames laboratoriais, doenças associadas, medicamentos em uso, estilo de vida e objetivos individuais. A partir dessas informações, é possível estabelecer uma estratégia proporcional ao risco e às necessidades de cada paciente. Tratamento da obesidade em Florianópolis O acompanhamento endocrinológico da obesidade, do sobrepeso e da síndrome metabólica pode incluir avaliação metabólica completa, investigação das complicações associadas, orientação de mudanças do estilo de vida e, quando indicado, tratamento farmacológico. Em Florianópolis e Santo Amaro da Imperatriz, realizo atendimento endocrinológico com abordagem individualizada para pessoas com obesidade, sobrepeso, resistência à insulina, pré-diabetes, diabetes, alterações do colesterol e triglicerídeos e outras condições metabólicas relacionadas. O acompanhamento é planejado de acordo com o perfil clínico e os objetivos de cada paciente, com atenção não apenas à redução do peso, mas também à saúde metabólica, à composição corporal, à preservação da função muscular e à manutenção dos resultados no longo prazo.

Quando procurar um endocrinologista para tratar obesidade ou sobrepeso?

A avaliação pode ser especialmente útil quando existe dificuldade persistente para perder ou manter peso, ganho progressivo de peso, obesidade abdominal, pré-diabetes, diabetes tipo 2, hipertensão, alterações de colesterol ou triglicerídeos, esteatose hepática metabólica, apneia do sono ou outras complicações relacionadas ao excesso de adiposidade. Também é apropriada quando existe dúvida sobre a indicação de medicamentos para emagrecimento ou quando tratamentos anteriores não produziram resultado satisfatório. O tratamento moderno da obesidade é baseado em evidências, individualização e acompanhamento longitudinal. Mais do que perseguir um número específico na balança, o objetivo é utilizar as ferramentas disponíveis para melhorar a saúde, reduzir riscos e construir resultados que possam ser mantidos ao longo do tempo.

Dr. Tiago Suassuna
Endocrinologista
CRM-SC 29400 | RQE 21653

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